Quando um filho se assumiu LGBTQIA+ diante dos pais, é comum que a casa fique, por um instante, em silêncio. Não é frieza nem rejeição — muitas vezes é apenas a mente tentando processar uma informação nova sobre alguém que você pensava conhecer por completo. Esse instante de silêncio pode doer, tanto para quem contou quanto para quem ouviu. E é justamente sobre esse território — o que fazer com o que se sente antes, durante e depois dessa conversa — que quero falar com você.
O que sentir quando um filho se assumiu LGBTQIA+?
Surpresa, medo, confusão, culpa, preocupação — todos esses sentimentos podem aparecer ao mesmo tempo, e nenhum deles faz de você um pai ou uma mãe ruim. Reconhecer o que você sente é o primeiro passo para não deixar que a reação automática fale mais alto do que o vínculo.
Alguns desses sentimentos merecem um olhar mais atento:
- Surpresa — a sensação de que algo mudou de uma hora para outra, mesmo que seu filho já viva essa descoberta há tempos.
- Medo — geralmente ligado ao futuro: como ele vai ser tratado, o que vai enfrentar lá fora.
- Culpa — a pergunta silenciosa “eu fiz algo errado?”, que não tem fundamento, mas insiste em aparecer.
- Preocupação — o desejo genuíno de proteger, que às vezes se disfarça de resistência.
Sentir isso não é o problema. O problema é quando esses sentimentos, não elaborados, se transformam em silêncio prolongado, cobrança ou distanciamento.
Por que a culpa aparece com tanta força?
Muitos pais se perguntam onde “erraram” na criação. Essa pergunta parte de uma ideia equivocada, ainda comum, de que a orientação sexual ou a identidade de gênero seriam resultado de alguma falha na educação. Não são. São parte de quem seu filho é e de como ele foi se descobrindo ao longo da própria vida.
Trocar a pergunta “o que eu fiz de errado?” por “o que meu filho precisa de mim agora?” já é um movimento que alivia a culpa e abre espaço para o cuidado.
Como transformar o medo em diálogo, sem negar o que você sente?
Acolher não significa fingir que está tudo resolvido dentro de você. É possível dizer, com sinceridade, algo como: “Isso é novo para mim, preciso de um tempo para entender melhor, mas eu te amo e quero estar perto”. Essa frase não nega o desconforto — ela apenas evita que o desconforto vire distância.
Alguns caminhos práticos ajudam nesse início de conversa:
- Agradeça a confiança: seu filho escolheu contar a você, o que já diz muito sobre o vínculo entre vocês.
- Evite respostas apressadas, mesmo que sejam bem-intencionadas, como “tenho certeza que é só uma fase”.
- Pergunte como ele prefere que a família trate o assunto, em vez de decidir sozinho.
- Busque informação de fontes sérias sobre o tema, em vez de se apoiar apenas em impressões pessoais.
- Procure apoio para você — terapia, grupos de pais, conversas com outros familiares que já passaram por isso.
E se eu ainda não concordar ou não entender completamente?
Entender e concordar não são a mesma coisa que amar e respeitar. Você pode levar tempo para compreender totalmente a experiência do seu filho — e ainda assim escolher, todos os dias, tratá-lo com respeito e presença. O vínculo não exige que você abra mão da sua própria elaboração interna; exige apenas que essa elaboração não vire uma arma contra quem você ama.
Um outro livre: o que a existência nos ensina sobre esse momento
Na perspectiva existencial, cada pessoa é responsável por construir o sentido da própria vida — ninguém vive essa tarefa no lugar do outro. Seu filho não é um projeto seu a ser corrigido ou ajustado a uma expectativa; é um outro, com liberdade própria, escrevendo uma história que só pertence a ele.
Isso não significa abrir mão do vínculo — significa exercê-lo de outra forma. Amar sem possuir é reconhecer que o filho que você criou também é, desde sempre, um sujeito com escolhas, percepções e um caminho que não estava totalmente sob seu controle. Essa é uma das tarefas mais difíceis e mais bonitas da parentalidade: sustentar o afeto mesmo diante do que é diferente de você.
Reconhecer a liberdade do outro também alivia o peso da “culpa”. Se seu filho é autor da própria história, ele não é reflexo nem produto exclusivo das suas escolhas como pai ou mãe. Ele é, antes de tudo, alguém em processo de se tornar quem já está sendo.
Como lidar com o medo do preconceito que meu filho pode sofrer?
É legítimo temer que seu filho enfrente julgamento, discriminação ou situações difíceis fora de casa. Esse medo, quando bem direcionado, pode se transformar em rede de apoio: uma casa onde ele sabe que será acolhido, ouvido e defendido, independentemente do que encontrar lá fora.
O melhor antídoto para o medo do mundo não é o controle sobre o filho, mas a certeza que ele carrega de que tem, na família, um lugar seguro para voltar.
Perguntas frequentes
Preciso concordar com tudo para ser um bom pai ou uma boa mãe nesse momento?
Não. Respeito e presença importam mais do que concordância imediata. Você pode estar em processo de compreensão e, ainda assim, ser uma base segura para seu filho.
É normal eu precisar de um tempo para me acostumar?
Sim. Elaborar uma notícia importante leva tempo. O cuidado é não deixar esse tempo virar silêncio ou afastamento indefinido.
Devo forçar uma conversa se meu filho ainda não trouxe o assunto?
Não force. Sinalize abertura e disponibilidade, e deixe que ele escolha o momento de falar, no ritmo que for possível para ele.
Terapia pode ajudar nessa fase da família?
Pode, tanto para os pais elaborarem seus próprios sentimentos quanto para o filho ter um espaço de escuta próprio, sem a expectativa de resolver tudo em uma única conversa.
Se você está atravessando esse momento e sente que precisa de um espaço para organizar o que sente — ou quer entender como apoiar seu filho ou filha sem perder a si mesmo nesse processo —, pode ser um bom momento para buscar acompanhamento psicológico, presencial em Florianópolis ou online. Fale comigo pelo WhatsApp e vamos conversar sobre como a terapia pode ajudar você ou sua família nesse momento.