Falar em beleza fora dos padrões é, antes de tudo, falar sobre o direito de habitar o próprio corpo em paz. Tem dias em que a gente se olha no espelho e não se reconhece. Ou melhor: até se reconhece, mas não se gosta. Como se aquele corpo — esse que é casa, que é história, que é movimento — estivesse fora de lugar. E o que deveria ser íntimo, assim, torna-se estranho. Um incômodo.
De onde vem o incômodo com o corpo?
Esse desconforto não nasce do nada. Pelo contrário, ele é cultivado e empurrado para dentro da gente desde cedo. Crescemos ouvindo que existe um jeito certo de existir no mundo, e que esse jeito tem medidas exatas, curvas determinadas e pesos aprovados. Somos ensinades, portanto, a desconfiar do que é diferente e a punir nossos corpos por não seguirem o script.
Mas o corpo não é um enfeite. O corpo é o modo como existimos no mundo. Afinal, é através dele que amamos, choramos, lutamos, trabalhamos, desejamos e descansamos. Reduzir tudo isso a uma forma ideal, dessa forma, é uma violência — e uma violência que chamamos de normal.
E se o problema não for o corpo, mas o olhar?
Vivemos em uma sociedade que transforma o corpo em mercadoria e a autoestima em produto. O elogio, por exemplo, vem sempre junto de um “você emagreceu!”, e o silêncio pesa quando engordamos. Como psicóloga existencial, no entanto, acredito que o mal-estar com o corpo não é um problema individual: ele é o sintoma de um mundo que nos faz crer que só existe um jeito certo de ser. Não há neutralidade no olhar. O que nos fere, na verdade, é o modo como fomos ensinades a olhar para nós mesmes — e esse olhar pode, e precisa, ser transformado.
A beleza fora dos padrões como ato de liberdade
Talvez a beleza não esteja nas formas que cabem nas vitrines, mas na singularidade de quem habita esse corpo com coragem. Talvez cuidar de si seja, também, desobedecer: à balança, às revistas, ao “você deveria…”. Assim, romper com o padrão é um ato ético. É um gesto de liberdade.
Se você tem se sentido desconfortável com seu corpo, se carrega a dor de não se ver representade, se tem lutado para existir em paz com sua forma — saiba que esse caminho pode ser compartilhado. Acolher-se é um movimento possível. E, às vezes, ele começa no espaço de escuta de um encontro terapêutico, onde seu corpo não será julgado. Será ouvido.